Ansiedade, depressão e a sensação de estar performando o tempo todo
Tenho recebido, nos últimos anos, muitos pacientes com sintomas importantes de ansiedade, exaustão emocional e depressão, mas que apresentavam uma característica em comum que inicialmente passava despercebida: a sensação constante de precisar performar um personagem para conseguir se adaptar socialmente.
Muitas dessas pessoas descrevem a sensação de nunca conseguirem relaxar completamente em ambientes sociais. Sentem que precisam medir a própria fala o tempo inteiro, controlar suas reações, reduzir opiniões, esconder interesses e monitorar constantemente a forma como estão sendo percebidas.
Com o passar do tempo, esse estado de vigilância contínua gera exaustão. A pessoa começa a sentir que não consegue mais descansar mentalmente. Mesmo em momentos de lazer, existe uma sensação constante de esforço, controle e adaptação.
Em muitos casos, esse processo pode levar a sintomas depressivos importantes.
A pessoa perde gradualmente a sensação de autenticidade, começa a viver relações de formas pouco espontâneas e passa a experimentar um sentimento difuso de vazio, inadequação e distanciamento das pessoas, de si mesma e do mundo.

Uma característica muito comum nesses casos é que, inicialmente, nem o próprio sujeito entende exatamente o que está acontecendo. Ele apenas percebe que está cansado, irritado, ansioso ou deprimido.
Quando o esforço para se adaptar começa a produzir sofrimento
Quando investigamos essas situações de forma mais profunda, frequentemente encontramos um fenômeno chamado na literatura de Masking. O Masking é uma postura ativa de mascarar, falsear e performar comportamentos com o objetivo de obter melhor aceitação social. A pessoa aprende a adaptar constantemente sua forma de agir para reduzir rejeição, estranhamento ou conflitos.
Embora o masking seja muito discutido dentro do transtorno do espectro autista, ele também ocorre com frequência em pessoas com superdotação.
Quando a adaptação deixa de ser espontânea
Uma das coisas que causam extrema dificuldade é que, geralmente, quando a inteligência é muito elevada, ocorrem com frequência dificuldades com grupos e pessoas. Como a pessoa em questão tem uma característica que a difere muito da média, isso tende a gerar estranhamento na maioria das pessoas.
Os assuntos que despertam interesse nas pessoas com superdotação geralmente são muito diferentes dos assuntos da maioria das outras pessoas. As reações e formas de solução de problemas geralmente também são muito diferentes.
Quando existe, associado a todos esses fatores, um ambiente no qual não há validação dessas características, apoio emocional e construção adequada de autoestima, a diferença passa a ser percebida como um defeito.
“Fulano é chato”, “acha que sabe tudo”, “para tudo quer dar opinião”, “tem umas ideias nada a ver”, “não entende nada do que a gente fala” são algumas formas relativamente comuns como muitas pessoas com superdotação são percebidas durante infância e adolescência. Isso é extremamente doloroso.
O sofrimento emocional nesses casos pode ser muito intenso e, para conseguir algum equilíbrio social mínimo, muitas pessoas passam a utilizar o masking como estratégia de adaptação.

O sofrimento psicológico de crescer se sentindo diferente
Ou seja: a pessoa começa a fingir que não entendeu algo quando percebe que esse é o comportamento esperado pelo grupo; evita oferecer sugestões; finge que gostou de uma ideia que considera ruim; deixa de apresentar soluções para problemas que resolveu rapidamente; evita demonstrar facilidade para aprender determinadas coisas.
Inicialmente, esse processo costuma funcionar relativamente bem.
Pessoas com inteligência acima da média frequentemente possuem grande capacidade de observação comportamental e conseguem identificar rapidamente quais padrões sociais são mais aceitos dentro dos grupos.
Essa estratégia pode melhorar relações sociais na infância e, principalmente, na adolescência, período em que pertencimento e aceitação social possuem enorme peso psicológico.
O problema é que, quando o masking permanece ativado por muitos anos, ele começa a produzir consequências emocionais dolorosas.
Na vida adulta, a pessoa pode passar a fazer escolhas pouco autênticas, desenvolver relações superficiais e até reduzir o próprio potencial em troca de “aceitação”.
Com o tempo, muitas pessoas literalmente esquecem como agir sem “mascarar”, porque o masking se torna um comportamento automático.
Por consequência, podem ocorrer muitos dias consecutivos onde não existe nenhum momento genuíno de autenticidade. Além disso, manter o masking ativado continuamente gera enorme desgaste cognitivo e emocional.
Uma quantidade significativa do processamento cognitivo passa a ser utilizada para monitorar comportamento, linguagem, expressão emocional e reação das outras pessoas.
Isso frequentemente leva a um estado crônico de cansaço psicológico.
O cansaço emocional de performar o tempo inteiro
Muitas vezes, o masking também faz com que a pessoa aja contra os próprios valores. Por exemplo: é relativamente comum alguém com superdotação fingir que não entendeu algo para não constranger outra pessoa com sua rapidez de compreensão, ou deixar de apresentar soluções para um problema complexo para evitar inveja, hostilidade ou rejeição.
Quando existe algum tipo de competição dentro de um grupo, a possibilidade de surgir inveja em relação à capacidade intelectual e inteligência costuma ser muito grande.
E existe um ponto especialmente delicado nesse processo: quando a pessoa não compreende a própria inteligência e não possui um entendimento adequado sobre si mesma, ela tende a interpretar a hostilidade dos outros como prova de inadequação pessoal.
Algo do tipo: “Se as pessoas reagem dessa forma comigo, talvez eu realmente seja errado, arrogante, desagradável ou inadequado.” Esse tipo de interpretação reforça ainda mais o masking e dificulta comportamentos mais saudáveis e espontâneos.
O impacto psicológico de esconder constantemente a própria inteligência
Outra dificuldade muito comum em pessoas com capacidade cognitiva muito acima da média é a dificuldade de lidar com a própria mente. É relativamente frequente existirem várias linhas de pensamento ocorrendo simultaneamente, uma energia mental intensa, pouca necessidade de sono, grande capacidade de concentração e memória, aprendizagem acelerada, facilidade para concatenar conceitos complexos e elevada percepção dos próprios processos mentais.
Quando tudo isso ocorre sem autoconhecimento suficiente, essas características podem se tornar difíceis de gerenciar.
O fluxo ininterrupto de pensamento pode gerar ansiedade. As múltiplas linhas simultâneas podem gerar irritação e confusão. A elevada capacidade de previsão pode produzir impaciência, porque a pessoa frequentemente percebe os outros como lentos e previsíveis.
A sensibilidade emocional intensa pode gerar instabilidade devido à dificuldade de regular emoções muito profundas. Muitas pessoas vivem assim durante anos sem compreender exatamente o que está acontecendo.
Sentem apenas que existe algo “errado” consigo mesmas.
O problema não era apenas ansiedade ou depressão
Em alguns casos, a pessoa descobre posteriormente que possui superdotação. Em outros, um Transtorno do Espectro Autista. Em muitas situações, existem inclusive associações entre os dois quadros.

Independentemente do diagnóstico, existe uma questão central: viver continuamente performando uma identidade socialmente aceitável pode gerar sofrimento psicológico importante. Inclusive, o masking pode ser fonte de uma parte significativa da ansiedade e da depressão.
Muitas pessoas com essas características podem se beneficiar significativamente da psicoterapia, especialmente quando encontram um terapeuta experiente nesse tipo de funcionamento.
O objetivo não é eliminar a adaptação social. O objetivo é que a pessoa consiga desenvolver autoconhecimento suficiente para distinguir adaptação saudável de autoapagamento: o que são dificuldades próprias, o que pertence às demandas das outras pessoas, como a inveja ou a reação dos outros pode impactar seu comportamento, entre outras questões importantes.
Sem esse processo, uma capacidade intelectual muito elevada pode acabar se transformando não em fonte de realização, mas em exaustão, isolamento e sofrimento emocional contínuo.

No caso do Transtorno do Espectro Autista, esse processo é ainda mais relevante, porque, além do impacto causado pelo masking, existem também questões associadas à rigidez e ao próprio funcionamento autista. Quando essas dimensões são compreendidas e trabalhadas adequadamente, podem possibilitar melhora importante na funcionalidade e na qualidade de vida.



