O peso de ser eu - Quando é difícil ser quem se é
Por que erros pequenos e críticas sem importância podem causar tanto sofrimento?
Eu estava nessa semana atendendo uma paciente que tinha uma questão interessante. Ela sofria muito quando qualquer ponto da imagem dela parecia associado a qualquer evento que não fosse ótimo ou louvável. Assim, qualquer trabalho feito, mesmo que não tivesse sua participação direta, e que o desempenho ou resultado não fosse ótimo, desencadeava uma ansiedade muito grande.
Olhando mais a fundo esse processo, percebemos que ele não acontecia em várias áreas da vida dela, apenas no trabalho. Justamente no contexto que tinha um valor muito grande, uma “saliência” muito grande. Eu uso aqui o termo saliência para me referir à capacidade que algo tem de influenciar e controlar a nossa vida. Então o trabalho era uma das coisas mais importantes para ela. Talvez por isso esse processo ocorresse de forma tão sensível e tão perturbadora.
E esse fenômeno é comum para muitas, muitas pessoas. Ele geralmente é percebido como uma espécie de constrangimento ou vergonha quando um erro é apontado, por exemplo numa situação trivial dentro de casa, mas pode desencadear até raiva intensa quando o impacto é maior ou quando esse “erro” é exposto, de forma contundente ou agressiva.
Quando uma identidade se torna um peso
Esse processo, que é muito sensível e doloroso para quase todos os seres humanos, ocorre através de um mecanismo muito sofisticado e sutil. A nossa percepção de identidade, ou a nossa percepção de quem nós somos, é a junção de tudo aquilo que pensamos acerca de nós mesmos. Essa percepção é construída desde a primeira infância e, ao longo dos anos, nós vamos aderindo conceitos, experiências, memórias e características.

Então, a cada vez que alguma situação concreta da vida entra em choque contra essa identidade, o desconforto causado pode ser imenso. Em alguns casos, a pessoa pode inclusive se tornar disfuncional.
A adesão e principalmente o investimento nesse tipo de identidade cria uma dificuldade enorme, porque quando essa identidade é questionada pelas atitudes das pessoas ou pelas próprias contingências da vida, o sofrimento pode ser muito intenso.
Quando alcançar não traz tranquilidade
Então, no caso específico da paciente que mencionei, quando ela construiu para si mesma uma imagem ou ideia de competência e excelência no trabalho, qualquer pequeno detalhe que pudesse insinuar menor competência ou menor qualidade no seu desempenho causava extrema ansiedade.
Em alguns casos, a ansiedade era tão intensa que chegava a gerar uma espécie de paralisia. Nessas horas ela tinha muita dificuldade de engajar em outras tarefas, e ficava muito tempo sofrendo com preocupações e ruminações em torno desse assunto.
A experiência de quem passa por esse tipo de questão é a de uma espécie de peso, como se fosse difícil “suportar a si mesmo” ou “viver dentro de si mesmo”.

Na verdade, isso só acontece por conta de todo o aparato e esforço necessário para manter essa identidade e essas concepções sobre si mesmo. E tudo isso é completamente independente da vida real.
Então a pessoa pode ter um desempenho maravilhoso no trabalho, estar entre as mais reconhecidas da sua área e ainda assim lutar com unhas e dentes para defender essa identidade. O que seria funcional aqui (e também justo com ela) seria justamente o contrário: mais tranquilidade diante de críticas, erros e contratempos. Afinal, se ela já está alcançando aquilo que sempre quis alcançar, por que acontecimentos tão pequenos continuam causando tanto sofrimento?
E esse processo pode se tornar tão desproporcional que erros simplórios, considerados irrelevantes pelas outras pessoas, passam a ser percebidos como catastróficos. Isso pode disparar uma série de reações de ansiedade e outras formas de sofrimento.
Pode surgir inclusive a sensação de ser uma “fraude”, porque a identidade que ela defendia é irreal, inatingível.
O medo de não ser quem imaginávamos
Quando os erros e as contingências da vida aparecem, o raciocínio imediato de muitas pessoas com esse tipo de funcionamento é:
“Se isso aconteceu, então talvez eu não seja aquilo que eu imaginava.”
“Talvez eu seja uma fraude.”
E esse sentimento de fraude pode desencadear uma série de outros sofrimentos e problemas emocionais.
Identidade, desempenho e sofrimento psicológico
Esse caso específico dessa paciente foi muito interessante porque o processo no qual ela estava, ou seja, a forma como ela funcionava, estava sendo muito
saudável e eficiente. Ela estava participando de cirurgias complexas, aprendendo de forma consistente e se envolvendo a cada dia mais em processos de aprendizagem importantes. Outros pontos da vida dela também estavam caminhando de forma gradual, cada vez mais funcionais e saudáveis.
Então, quando você faz essa análise e olha o investimento na identidade versus o investimento no processo, fica muito claro que se o foco estivesse no processo e não no investimento em uma identidade específica, muitos problemas deixariam de acontecer e muito ruído mental, muito desconforto, constrangimento, vergonha e ansiedade desapareceriam.

Essa mudança gradual de foco — da identidade para o processo — é uma questão necessária. Quanto antes ela for feita, melhor, pois, ao longo
do tempo, esse processo pode ser muito penoso e sofrido. Esse é um processo difícil, porque a nossa cultura tem um foco muito forte na identidade e, principalmente depois do surgimento das redes sociais, isso ganhou ainda mais destaque. Na verdade, isso só mostra o quanto essa inversão é necessária.
Olhando para a história dessa paciente em específico, é possível perceber que ela estava cada vez mais se aproximando e até alcançando aquilo que objetivava ter como identidade, porque estava aprendendo mais e mais a cada dia, se tornando uma profissional melhor. Entretanto, o foco na identidade fazia parecer que ela nunca estava se aproximando disso ou conseguindo alcançar esse objetivo. O investimento na identidade, em vez do investimento no processo, tornou tudo extremamente cruel, como tentar encher uma piscina furada. Um processo que demanda enorme energia e investimento emocional e é incapaz de gerar algum resultado, apenas desgaste e sofrimento.



